Como desenvolver um único projeto em aldeias indígenas, uma comunidade quilombola e uma comunidade ribeirinha?
Essa foi a pergunta que orientou o Projeto Pontes para o Desenvolvimento do Turismo de Base Comunitária no Mato Grosso do Sul.
À primeira vista, o desafio parecia único: fortalecer iniciativas de Turismo de Base Comunitária em comunidades tradicionais do estado. Na prática, porém, cada território apresentava histórias, formas de organização, prioridades, lideranças e níveis de desenvolvimento completamente diferentes.
Foi justamente essa diversidade que definiu a estratégia do projeto.
Mais do que aplicar uma metodologia, era necessário compreender cada território antes de decidir quais caminhos seguir.
Desenvolvimento territorial começa pelo território
Projetos de desenvolvimento territorial costumam compartilhar objetivos semelhantes: fortalecer economias locais, ampliar oportunidades, valorizar patrimônios culturais e promover desenvolvimento sustentável.
O que muda — e muda profundamente — é a realidade de cada comunidade.
Mesmo quando trabalham com o mesmo instrumento, como o Turismo de Base Comunitária, diferentes territórios apresentam desafios distintos. Alguns precisam fortalecer sua organização comunitária. Outros demandam maior articulação institucional. Em determinados contextos, o desafio está na estruturação da oferta turística; em outros, na formação de lideranças ou na criação de conexões com o mercado.
Por isso, metodologias consistentes não significam repetir soluções. Significam construir processos capazes de responder às especificidades de cada realidade.
Foi essa abordagem que orientou o Projeto Pontes.
Um projeto, três territórios, três estratégias
O projeto reuniu três contextos bastante distintos no Mato Grosso do Sul:
- a Comunidade Quilombola Furnas da Boa Sorte, em Corguinho;
- a Comunidade Ribeirinha do Paraguai Mirim, no Pantanal;
- aldeias do povo Terena, em Miranda.
Embora todos compartilhassem o objetivo de fortalecer o Turismo de Base Comunitária, as estratégias adotadas foram diferentes.
Na comunidade quilombola, o trabalho concentrou-se no fortalecimento da associação comunitária, na organização da governança, na estruturação da oferta turística e na aproximação com parceiros comerciais capazes de ampliar oportunidades para a produção local.
Na comunidade ribeirinha, a prioridade foi estruturar um roteiro integrado, fortalecer empreendedores locais, desenvolver mentorias para empresas do turismo receptivo e promover maior articulação entre comunidades, instituições e a cadeia turística regional.
Já nas aldeias Terena, as ações voltaram-se para a valorização da cultura indígena, o fortalecimento das lideranças, o etnoturismo e a construção participativa de estratégias capazes de respeitar a organização própria de cada aldeia.
O objetivo permaneceu o mesmo durante todo o projeto.
As estratégias, não.
Adaptar também significa mudar de direção
Talvez um dos momentos mais importantes do projeto tenha acontecido logo em sua fase inicial.
Originalmente, uma quarta comunidade fazia parte do escopo: a APA Baía Negra.
Durante o trabalho de campo, porém, o diagnóstico identificou um cenário de elevada vulnerabilidade social e demandas prioritárias relacionadas às áreas de assistência social e saúde.
Diante dessa realidade, a decisão foi retirar a comunidade do projeto.
Em vez de insistir na implementação de ações de turismo, optou-se por recomendar que outras políticas públicas fossem priorizadas antes do desenvolvimento da atividade turística.
Essa decisão ilustra um princípio fundamental do desenvolvimento territorial.
O turismo não deve substituir políticas públicas essenciais. Ele precisa ser construído sobre condições mínimas que permitam à comunidade participar desse processo de forma segura, organizada e protagonista.
Em outras palavras, um lugar precisa ser, antes de tudo, um bom lugar para viver. Só então poderá se consolidar como um bom lugar para receber visitantes.
Uma metodologia construída em etapas
A adaptação das estratégias não aconteceu de forma intuitiva.
Ela foi resultado de uma metodologia estruturada em três grandes etapas.
A primeira consistiu em uma ampla análise situacional, envolvendo pesquisas, entrevistas, levantamento de informações e um trabalho de campo imersivo nas comunidades. O objetivo era compreender o contexto local, identificar potencialidades, reconhecer desafios e construir relações de confiança com moradores e lideranças.
Na sequência, foi realizado um Painel com Especialistas e Lideranças Locais, utilizando a metodologia World Café. Esse momento permitiu validar coletivamente os encaminhamentos do projeto, incorporando diferentes perspectivas ao planejamento das ações.
A segunda etapa concentrou-se nas formações complementares, com oficinas de associativismo, elaboração de projetos, roteirização, precificação, etnoturismo, mentorias para empreendedores e um intenso trabalho de articulação institucional.
Por fim, cada território participou da construção coletiva de um plano de ação, estabelecendo prioridades e estratégias para dar continuidade ao fortalecimento do Turismo de Base Comunitária após o encerramento da consultoria.
Essa sequência permitiu que cada decisão fosse construída a partir da realidade observada em campo, e não de modelos previamente definidos.
Resultados que vão além dos indicadores
Ao longo do projeto, foram desenvolvidas 271 ações de mobilização, assessoria técnica e fortalecimento comunitário.
Também foram estruturados três roteiros turísticos, realizadas onze mentorias coletivas para empreendedores do turismo, quatro oficinas presenciais e construídos planos de continuidade junto às comunidades.
Esses números ajudam a dimensionar o alcance da iniciativa, mas eles não representam seu principal resultado. O legado do Projeto Pontes está naquilo que permanece após o encerramento da consultoria, ou seja, nas comunidades mais organizadas, lideranças fortalecidas, associações mais preparadas, empreendedores mais qualificados, instituições conectadas e estratégias construídas coletivamente para continuar evoluindo.
Esses são ativos que permanecem nos territórios e criam condições para que o Turismo de Base Comunitária continue sendo desenvolvido de forma autônoma.
O desenvolvimento territorial não admite soluções padronizadas
Projetos de desenvolvimento territorial trabalham com pessoas, organizações, culturas e contextos muito diferentes entre si.
Por isso, não existem modelos capazes de responder igualmente a todos os territórios.
O que existe são metodologias capazes de compreender essa diversidade, adaptar estratégias e construir soluções junto às comunidades.
Foi essa capacidade de adaptação que permitiu ao Projeto Pontes desenvolver um único escopo de trabalho em territórios tão distintos quanto uma comunidade quilombola, uma comunidade ribeirinha e aldeias indígenas.
Mais do que fortalecer iniciativas de Turismo de Base Comunitária, o projeto demonstrou que desenvolvimento territorial exige escuta, planejamento, participação e decisões técnicas comprometidas com a realidade de cada comunidade.
É essa abordagem que orienta os projetos desenvolvidos pelo Instituto Vivejar: metodologias que colocam o território no centro das decisões e transformam o turismo em uma ferramenta de desenvolvimento construída junto com quem vive nele.
Não acreditamos em soluções padronizadas para o desenvolvimento territorial. Acreditamos em metodologias capazes de compreender cada contexto, fortalecer capacidades locais e construir estratégias junto às comunidades.
Se sua instituição pretende desenvolver um projeto de Turismo de Base Comunitária ou de desenvolvimento territorial, o Instituto Vivejar está preparado para apoiar esse processo — do diagnóstico à implementação, sempre com uma abordagem participativa e adaptada à realidade de cada território.







