Certificações de sustentabilidade ajudam empreendimentos turísticos a estabelecer metas, monitorar impactos e demonstrar compromissos socioambientais. Também podem orientar a escolha de fornecedores e fortalecer a confiança nas relações comerciais.
Mas até onde esses instrumentos conseguem transformar a maneira como o turismo se desenvolve em um destino?
Essa questão foi debatida no 1º Fórum Brasileiro de Turismo Responsável e aprofundada no livro UMATALHI: Cocriando futuros para o Turismo Responsável no Brasil, publicação do Instituto Vivejar em parceria com o Laboratório de Estudos em Turismo e Sustentabilidade da Universidade de Brasília (LETS/UnB).
As contribuições reunidas na obra ajudam a compreender os benefícios das certificações, suas limitações e as condições necessárias para ampliar seus resultados.
O que uma certificação consegue mudar na prática?
Certificações transformam compromissos amplos, como sustentabilidade e responsabilidade socioambiental, em critérios que podem ser avaliados e monitorados.
Dependendo do programa, esses critérios envolvem gestão de recursos naturais, condições de trabalho, valorização cultural, compras locais e relacionamento com as comunidades.
No UMATALHI, Helena Costa, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora do LETS/UnB, explica que existem diferentes certificações nacionais e internacionais, voltadas a empresas de distintos portes e também a destinos turísticos.
A pesquisadora destaca que a avaliação externa pode aumentar a confiabilidade das relações comerciais. Para os empreendimentos, os processos de certificação também podem estimular a revisão de políticas internas, a organização de indicadores e a adoção de procedimentos para prevenir impactos negativos.
Sua efetividade, entretanto, depende da incorporação desses critérios às decisões e rotinas de gestão.
Quando a certificação influencia toda a cadeia do turismo
Daniela Meres Silva Concatto, diretora da Gondwana Brasil, apresenta no UMATALHI a experiência da operadora em sua jornada de certificação internacional Travelife. À época do relato, publicado em 2025, a empresa estava no nível Travelife Engaged, preparando-se para avançar ao Travelife Partner.
O processo envolveu diagnóstico, formalização de políticas, treinamento da equipe, revisão de contratos e acompanhamento dos fornecedores. Segundo Daniela, a adoção de critérios reconhecidos internacionalmente também contribuiu para fortalecer a credibilidade da operadora junto ao mercado europeu, seu principal público.
Um dos desafios encontrados foi envolver pequenos fornecedores, que frequentemente dispõem de pouco tempo, recursos e estrutura administrativa para atender às exigências.
A Gondwana passou a oferecer materiais de orientação, webinars e cronogramas de adequação, buscando apoiar esses parceiros na melhoria de suas práticas.
A experiência ilustra uma possibilidade relevante: operadoras e agências podem utilizar os critérios de certificação para qualificar sua cadeia de fornecedores, ampliando o alcance das boas práticas para além da própria empresa.
O desafio de incluir pequenos empreendimentos
O acesso às certificações continua sendo um obstáculo para parte do setor turístico.
Helena Costa chama atenção para os custos e a complexidade dos processos, especialmente em um mercado marcado pela informalidade e pela presença de pequenos negócios e iniciativas comunitárias.
Há também o desafio de aplicar critérios internacionais a realidades territoriais distintas. Daniela Meres cita, por exemplo, exigências de captação de água da chuva em lodges amazônicos, mesmo quando outras questões ambientais podem ser mais relevantes naquele contexto.
Esse tipo de situação exige atenção à adequação dos critérios, sem comprometer o rigor das avaliações.
Programas de assistência técnica, modelos de certificação coletiva, incentivos financeiros e processos graduais de adequação podem ampliar o acesso.
A discussão também exige reconhecer que empreendimentos sem certificação formal podem desenvolver práticas consistentes de conservação ambiental, valorização cultural e distribuição de benefícios.
A ausência de um selo não deve ser utilizada, isoladamente, como indicador de falta de responsabilidade socioambiental.
Um empreendimento certificado significa um destino mais responsável?
Uma hospedagem pode apresentar bons indicadores ambientais e cumprir os requisitos de uma certificação reconhecida. Ainda assim, o destino onde está localizada pode enfrentar concentração de renda, conflitos pelo uso do território ou baixa participação das comunidades nas decisões sobre o turismo.
A avaliação de um empreendimento tem um escopo específico. Já o desenvolvimento responsável de um destino depende de fatores como governança, planejamento territorial, políticas públicas e distribuição dos benefícios econômicos.
A experiência de Bonito (MS), apresentada no UMATALHI por Bruno Wendling e Flávia Neri de Moura, mostra como uma certificação pode ser integrada a uma estratégia mais ampla.
Os autores relatam que a certificação de Bonito como destino de ecoturismo carbono neutro contribuiu para mobilizar empresas, fortalecer a governança climática e incorporar critérios de sustentabilidade às políticas estaduais de turismo.
A iniciativa também estimulou empreendimentos privados a buscar certificações complementares e ampliou a articulação entre diferentes atores do setor.
O caso demonstra o potencial de utilizar uma certificação como instrumento de gestão pública e mobilização empresarial. Seus resultados, porém, concentram-se na agenda climática e não dispensam a avaliação das demais dimensões do desenvolvimento territorial.
Certificações e ação climática: a importância de medir resultados
O turismo contribui para as emissões de gases de efeito estufa e sofre os impactos das mudanças climáticas. Por isso, compromissos de descarbonização precisam ser acompanhados de indicadores e medidas concretas.
No UMATALHI, Vilena Silva, CEO da Compensei, destaca a importância de instrumentos de mensuração, normas técnicas e processos de verificação para fortalecer a credibilidade dos compromissos climáticos.
A autora também ressalta que a responsabilidade climática deve alcançar diferentes dimensões da operação turística.
Nesse contexto, é importante distinguir a mensuração de emissões, sua redução efetiva e a compensação por meio de créditos de carbono. São práticas com objetivos e metodologias diferentes, que precisam ser avaliadas de acordo com seu escopo.
Uma certificação relacionada ao carbono pode demonstrar o atendimento a determinados critérios climáticos, mas não comprova, por si só, a sustentabilidade integral de um empreendimento ou destino.
Aprofunde essa discussão no UMATALHI
O livro UMATALHI: Cocriando futuros para o Turismo Responsável no Brasil, publicado pelo Instituto Vivejar em parceria com o LETS/UnB, reúne contribuições de 35 autores e autoras sobre certificações, mudanças climáticas, bioeconomia, governança e outros desafios para o desenvolvimento do turismo responsável no país.
Baixe gratuitamente o UMATALHI e conheça as experiências e reflexões que ajudam a construir novos caminhos para o turismo brasileiro.







