A aproximação entre turismo e sociobioeconomia parece intuitiva em um país como o Brasil. Biodiversidade, conhecimentos tradicionais, modos de produção locais, gastronomia, cultura e paisagens estão presentes em parte significativa da oferta turística brasileira.

Mas essa proximidade territorial, por si só, diz pouco sobre o modelo econômico que está sendo construído.

Uma das contribuições mais relevantes do UMATALHI: Cocriando futuros para o Turismo Responsável no Brasil, publicação organizada pelo Instituto Vivejar e pelo LETS/UnB, é justamente tensionar essa relação.

Pedro Meloni Nassar, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, chama atenção para o risco de associar automaticamente atividades realizadas em áreas naturais ou junto a comunidades tradicionais à bioeconomia. Uma trilha em uma unidade de conservação ou a contratação de um condutor local podem gerar benefícios importantes, mas são insuficientes para caracterizar, isoladamente, uma dinâmica de bioeconomia.

A questão ganha densidade quando observamos como a atividade se organiza economicamente e socialmente.

Entre os critérios destacados por Nassar, estão: distribuição justa dos benefícios, coletividade e compartilhamento entre os atores, conservação ambiental, inclusão e justiça social, além de resultados que ultrapassam a dimensão monetária.

É aí que a relação entre turismo e sociobioeconomia começa a interessar de maneira mais estratégica ao desenvolvimento territorial.

O desafio está na distribuição do valor

O turismo pode gerar demanda, ampliar mercados e conectar produtos e serviços territoriais a consumidores que dificilmente chegariam até eles por outros caminhos.

A questão seguinte é mais difícil: como esse valor é distribuído ao longo da cadeia?

O exemplo do manejo do pirarucu apresentado por Nassar ajuda a explicitar o problema. A atividade reúne conhecimento tradicional, participação local, regras de conservação e geração de benefícios para comunidades. Ao mesmo tempo, enfrenta dificuldades de acesso a mercados capazes de remunerar adequadamente quem realiza o manejo. O autor aponta que produtores podem receber apenas uma pequena parcela do valor posteriormente capturado em outros elos da cadeia, situação também observada em produtos como castanha-do-brasil e farinha de mandioca.

A discussão é diretamente aplicável ao turismo.

A existência de uma cadeia local não garante, sozinha, uma distribuição territorialmente equilibrada dos resultados. É possível ampliar a demanda por produtos, experiências ou serviços e, ao mesmo tempo, manter relações de dependência, baixa capacidade de negociação ou concentração dos ganhos em intermediários externos.

Por isso, a sociobioeconomia coloca uma questão que os indicadores tradicionais do turismo dificilmente respondem: quem captura o valor criado pelo território?

Essa pergunta alcança remuneração, mas também governança, acesso ao mercado, capacidade de negociação e participação nas decisões sobre a própria atividade.

Crescer também pode reproduzir desigualdades

Essa talvez seja uma das tensões mais importantes para quem trabalha com desenvolvimento territorial.

Quando uma experiência ganha visibilidade, aumenta a demanda e passa a acessar novos mercados, surgem oportunidades de geração de renda. Surgem também novas assimetrias.

Nassar alerta para situações em que comunidades começam a se organizar para o turismo e agentes externos chegam oferecendo perspectivas rápidas de lucro e desenvolvimento, sem transparência suficiente ou participação social efetiva, enquanto utilizam externamente discursos associados à sociobioeconomia.

O problema, portanto, não está apenas em criar mercado. Está em como esse mercado é estruturado e quais capacidades o território desenvolve para participar dele em melhores condições.

Essa discussão se torna especialmente relevante à medida que temas como bioeconomia, produtos da sociobiodiversidade e turismo comunitário passam a receber maior atenção de empresas, governos, investidores e consumidores.

Quanto maior o interesse econômico, maior também a necessidade de mecanismos de governança capazes de preservar protagonismo, transparência e capacidade de decisão nos territórios.

O turismo pode exercer um papel mais estruturante

No texto de Thais Corral, a relação entre turismo e sociobioeconomia ganha uma dimensão adicional.

A autora apresenta a bioeconomia como uma reorganização das cadeias produtivas e das relações econômicas fundamentada na biodiversidade e na regeneração dos ecossistemas. Quando trata especificamente da sociobioeconomia, incorpora geração de renda, qualidade de vida, conhecimentos tradicionais, economias de pequena escala e protagonismo comunitário.

Essa leitura desloca o turismo de uma posição meramente setorial.

No Caminho do Recôncavo da Guanabara, estudado por Corral, o turismo funciona como parte de uma rede que conecta áreas protegidas, comunidades tradicionais, produção agroflorestal, hospitalidade, cultura e iniciativas regenerativas. O fluxo de visitantes ajuda a criar mercado para diferentes cadeias, enquanto a conservação, a produção e a cultura fortalecem a própria atividade turística.

O aspecto mais interessante aqui é a articulação territorial.

O potencial do turismo para a sociobioeconomia cresce quando ele consegue conectar atividades que, isoladamente, teriam menor acesso a mercado, circulação e visibilidade.

Isso amplia a discussão sobre desenvolvimento turístico. A questão deixa de ser apenas quais novos produtos turísticos podem ser criados e passa também por quais conexões econômicas podem ser fortalecidas dentro do território.

Da iniciativa local à estratégia territorial

Corral apresenta ainda uma teoria de mudança baseada em três escalas: biohub, biorregião e bioeconomia.

Na proposta, iniciativas locais funcionam como espaços de experimentação; a articulação entre diferentes experiências, comunidades e áreas de conservação forma uma rede territorial; e essa rede pode, posteriormente, estruturar cadeias capazes de dialogar com mercados mais amplos.

Esse ponto é particularmente relevante porque introduz uma questão recorrente no desenvolvimento territorial: escala.

Iniciativas comunitárias e negócios ligados à sociobiodiversidade frequentemente enfrentam dificuldades para acessar mercados, financiamento, logística, qualificação e canais de comercialização. A solução não passa necessariamente por transformar cada iniciativa em um empreendimento de grande porte. Pode passar pela construção de redes capazes de ampliar sua capacidade de negociação e atuação preservando diversidade, autonomia e vínculos territoriais.

O turismo pode participar dessa infraestrutura de conexão.

Ele cria fluxos de pessoas, consumo e informação entre diferentes pontos do território e pode ajudar a aproximar produção, serviços, cultura, conservação e mercado.

Essa perspectiva também amplia a forma como avaliamos os resultados da atividade turística.

Que economia o turismo ajuda a construir?

Número de visitantes, geração de empregos, gasto médio e permanência continuam sendo indicadores relevantes para o planejamento turístico.

Para compreender a contribuição do turismo para a sociobioeconomia, porém, precisamos acrescentar outras perguntas:

  • Quanto do valor gerado permanece no território?
  • Como esse valor é distribuído?
  • Quem controla os canais de acesso ao mercado?
  • Que capacidades econômicas e organizacionais permanecem depois que o visitante vai embora?
  • A atividade fortalece a autonomia dos atores territoriais ou aumenta sua dependência?
  • Quais relações são criadas entre turismo, conservação e outras cadeias produtivas?

Essas perguntas aproximam turismo e sociobioeconomia de uma agenda mais ampla de desenvolvimento territorial.

E ajudam a explicar por que essa discussão ocupou espaço importante na edição Nacional do Fórum de Turismo Responsável.

O UMATALHI, concebido como um dos legados daquele encontro, dedica um bloco inteiro às convergências entre turismo e bioeconomia, reunindo reflexões de Elimar Nascimento, Pedro Meloni Nassar e Thais Corral. Clique aqui e faça o download gratuito do livro na íntegra.

Agora, essa conversa ganha uma dimensão especialmente pertinente.

A próxima edição regional do Fórum de Turismo Responsável será realizada em Manaus, em um território onde a sociobioeconomia ocupa posição central nas discussões sobre conservação, geração de renda, conhecimentos tradicionais e alternativas de desenvolvimento.

Levar essa discussão para a Amazônia significa aprofundá-la a partir de territórios em que essas relações já estão sendo experimentadas, disputadas e construídas.

Para o Instituto Vivejar, essa é uma conversa que precisa continuar: compreender que papel o turismo pode desempenhar na construção de economias que conservem biodiversidade, fortaleçam capacidades territoriais e distribuam melhor o valor produzido a partir dos territórios.

O UMATALHI registra uma parte dessa construção. Manaus abre o próximo capítulo. 

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